Poucas pessoas se perguntam de onde vieram os pensamentos e opiniões que elas têm sobre si mesmas. 

Pensamentos podem ser aprendidos

Os pensamentos que passam pela nossa mente muitas vezes aparecem na nossa “voz”. Com as nossas palavras. Não costumamos parar e perguntar "de onde veio essa ideia?" por parecer que veio de dentro da nossa cabeça, então acreditamos ser nossa.

Mas pensamentos podem ser aprendidos. Assim como aprendemos a falar português, as regras de convivência que seguimos, o valor que atribuimos a certas coisas, nós também aprendemos certos critérios para nos autoavaliar. A pergunta é quais foram esses critérios e com quem foram aprendidos. Alguns deles, especialmente aqueles que são altamente críticos e cruéis, podem ter vindo da convivência com uma pessoa que tinha um interesse egoísta em moldar como nos enxergamos.

Como a voz de outra pessoa vira a sua voz

Dr. Jennifer Freyd, pesquisadora americana, estudou o que acontece com a nossa percepção quando temos um vínculo afetivo com uma pessoa que nos causa dano sistematicamente. A descoberta central dela foi que o nosso cérebro desenvolve mecanismos de autoproteção incluindo minimizar e justificar o comportamento nocivo de uma outra pessoa de quem dependemos. Não é uma escolha consciente. O cérebro faz isso porque manter o vínculo a todo custo parece mais seguro do que reconhecer a ameaça que não pode ser evitada.

Ela chamou isso de betrayal blindness - cegueira sobre a traição. Traição aqui é no sentido da traição da confiança, não necessariamente traição romântica. Quando você depende de alguém e essa pessoa te causa dano repetidamente (trai a sua confiança), o seu cérebro "desliga" a capacidade de enxergar o que está acontecendo com clareza porque reconhecer o dano colocaria em risco um vínculo do qual você acredita precisar para sobreviver.

É como se o cérebro fizesse um cálculo automático: "se eu enxergar o que essa pessoa está fazendo, vou ter que agir e agir significa perder esse vínculo." Para evitar essa perda, minimizamos ("não foi tão grave"), justificamos ("ele estava estressado"), ou simplesmente esquecemos episódios que, vistos de fora, seriam inaceitáveis até por nós mesmos.

Além disso, quando a nossa percepção é constantemente questionada "você está exagerando", "você distorce tudo", "você é sensível demais", o nosso cérebro começa repetir essas ideias, de forma automática. Inconscientemente, essas frases viram o álibi perfeito para os comportamentos nocivos de uma outra pessoa. Não só a outra pessoa transfere a culpa, mas nós aceitamos facilmente porque de uma certa forma convém. E assim, com o tempo, antes mesmo que a outra pessoa precise dizer qualquer coisa para nos criticar, já aceitamos a responsabilidade. A voz dela vira a nossa.

Frases instaladas para silenciar

Aqui estão algumas das frases mais comuns que são absorvidas de fora e gradualmente substituem a sua própria voz. Você pode reconhecer uma, várias, ou todas:

"Ele(a) só está estressado(a)." Essa frase tem o propósito de explicar o comportamento dele sem ser questionado. Ela reduz o conflito interno de você se sentir perturbada, porque "tem uma justificativa".  

"Eu sempre exagero." Essa frase invalida a sua percepção. Mas, ao mesmo tempo, ela alivia o peso do que a outra pessoa fez com você e permite que o vínculo seja mantido. Afinal, se foi você que exagerou, a responsabilidade é sua. 

"Eu também erro." Essa frase cria equivalência muitas vezes onde não há equivalência. Ela transforma o que você está vivendo em uma dinâmica normal de relacionamento - e impede você de nomear a assimetria que existe quando uma pessoa domina e controla de forma velada dentro do relacionamento. A verdade é que nem sempre tem dois lados. Às vezes uma pessoa causa o dano e a outra absorve, sem participação nisso ou consciência do que está acontecendo.

"Ele(a) teve uma infância difícil." Essa frase move o foco do que está acontecendo com você para o que aconteceu com ele(a). Sua dor causada pelo comportamento dele(a) é convertida em empatia pelo passado dele(a). Essa empatia deslocada protege contra a raiva que você sentiria se percebesse como a outra pessoa realmente te trata mal. Sentir raiva faria você reagir e isso ameaçaria o vínculo existente.

"Talvez eu seja sensível demais." Essa frase patologiza respostas emocionais naturais. Faz a sua dor parecer ser o problema em vez do comportamento da outra pessoa que gerou essa dor. O resultado é que você tenta abafar a dor ao invés de olhar para o comportamento nocivo da outra pessoa.

O padrão é sempre o mesmo: cada uma dessas frases distorce a sua realidade e impede você de sentir a dor necessária para agir e se proteger. A maior dificuldade é que ao pensar assim e acreditar nessas frases como se fossem pensamentos seus, o abuso emocional acontece de dentro. Você exerce o controle sem perceber. A voz manipuladora e controladora da outra pessoa está dentro da sua mente agora.

Como distinguir o que é seu do que foi instalado

Aprender a diferenciar a sua própria voz das ideias que foram instaladas para te controlar é um processo. Um exercício que ajuda é começar a questionar os seus próprios pensamentos daqui para frente.

Quando você pensar "talvez eu esteja exagerando" pergunte-se: essa conclusão veio de uma análise sua? Você avaliou os fatos com calma e chegou a essa conclusão de forma independente e ponderada? Ou a frase aparece como reflexo automático, especialmente nos momentos de maior perturbação ou angústia?

Pensamentos genuinamente nossos se sustentam quando estamos sozinhos tranquilos, com distância suficiente daquela pessoa ou da situação. Pensamentos próprios são estáveis quando temos tempo para analisá-los.

Pensamentos instalados, por outro lado, aparecem como reflexo de autoproteção. No pico emocional. Eles aparecem para reduzir perturbação interna e costumam beneficiar a outra pessoa do relacionamento mais do que a nós mesmos. São racionalizações e justificações mais do que opiniões. Pensamentos instalados tendem a controlar o nosso comportamento e reduzir a nossa liberdade.

O mapa que não é seu

Você não perdeu o juízo. Você está usando, em parte, um mapa que não é seu. Um mapa que foi instalado poucos, disfarçado de cuidado ou amor. Mas esse mapa te leva para o caminho errado, cada vez mais longe de quem você realmente é.

É desafiador destrinchar o que é ilusão e o que é a realidade de um relacionamento tóxico. O primeiro passo é reconhecer que alguns dos pensamentos que você tem sobre si podem não ser seus. E alguns desses pensamentos que bloqueiam a sua ação servem o único propósito de te manter sob controle e na ilusão.

Tem dias em que você vai conseguir identificar esse tipo de frase instalada. E outros em que esses pensamentos que te silenciam vão soar reais na sua mente. Tudo bem. O fato de você estar lendo isso agora e se reconhecendo já mostra que a sua percepção está voltando. A voz instalada precisa de escuridão para operar. Quando você acende a luz da sua consciência, ela perde força e você retoma a sua soberania. Um passo de cada vez.

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Carol

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