Se você chegou até esse artigo, provavelmente já se fez essa pergunta mais de uma vez. Você estuda as red flags, decora os sinais, jura que dessa vez vai ser diferente. E mesmo assim, lá você está de novo - dentro de mais um relacionamento que te faz mal.
Antes de qualquer coisa: não tem nada de errado com você.
Mas para entender isso de verdade, a gente precisa ir além da resposta fácil.
O que é narcisismo de fato (e por que as pessoas confundem)
Quando alguém escreve para mim falando de um parceiro narcisista, nem todo mundo tá falando da mesma coisa. A palavra ficou famosa - e isso foi bom e ruim ao mesmo tempo.
A visão que se espalhou mais pela internet é a psicanalítica (uma resposta a feridas da infância). Mas existe outra perspectiva, com mais de 40 anos de estudos da psicologia da personalidade, que define narcisismo como um traço de personalidade que varia em graus. Do muito leve - que não é problema e a maioria das pessoas tem em algum nível - até moderado, alto e patológico.
Quando falo "narcisista", estou falando do grau moderado para cima. Aquele que causa dano.
E por trás desse traço, existe outro: o antagonismo. São os dois juntos que formam o padrão que a gente vê nos relacionamentos abusivos:
Exploração interpessoal (tirar vantagem dos outros)
Manipulação e mentira estratégica
Insensibilidade genuína às necessidades alheias
Grandiosidade - inclusive na vitimização
Não se importa com as necessidades alheias
Falta de empatia afetiva (não sente impulso de ajudar quem sofre)
E o detalhe que confunde muita gente: essa pessoa consegue ser uma coisa no privado com você e outra completamente diferente em público. Com você, gaslighting, inversão de vítima, culpa. Com os outros, charme.
Se a personalidade adulta é relativamente estável - e é, isso está bem documentado na literatura científica - essa pessoa não vai mudar. Pode ser doloroso aceitar, mas é essa informação que libera você para tomar decisões reais.
A camada que quase ninguém menciona
Aqui eu preciso ir para um lugar que muita gente evita.
Mais de 80% da audiência que consome conteúdo sobre abuso narcisista e relacionamentos tóxicos é mulher. Isso não é coincidência.
O psicoterapeuta americano Lundy Bancroft passou 30 anos estudando homens abusivos - aqueles enviados pela lei para grupos de reabilitação. O que ele encontrou foi revelador: a grande maioria desses homens não tinha nenhum transtorno. Não eram narcisistas clínicos. Eram homens comuns, criados dentro de uma cultura misógina, que usavam o abuso como ferramenta útil de controle e dominação das parceiras.
Quando ele entrevistou as parceiras e ex-parceiras desses homens para verificar se as reabilitações funcionavam, descobriu que não mudavam nada. E quando perguntou aos homens por que voltavam ao comportamento abusivo mesmo depois de "melhorar", a resposta era consistente: quando paravam de ser abusivos, as mulheres começavam a questionar, a não obedecer. E eles não gostavam disso.
Abuso, na nossa cultura, é funcional para quem abusa. É “útil”.
Então quando você pergunta "por que eu continuo atraindo narcisistas?", às vezes a resposta mais honesta é: porque você não necessariamente está atraindo narcisistas. Você está vivendo numa sociedade que normaliza o abuso contra mulheres e que cria tanto homens quanto mulheres para aceitarem isso como normal.
As chances de “escolher errado” são muito altas, enquanto as boas opções para parceiross são raras.
Falso positivo e falso negativo
Em pesquisa científica existem dois tipos de erro: falso positivo (chamar de narcisista quem não é) e falso negativo (não chamar de abusivo quem é).
Os dois são problemas reais.
Falso positivo: Chamar de narcisista uma pessoa que apenas não quer mais o relacionamento. Alguém que fala "não quero mais" e realmente vai embora não é abusivo - por mais doloroso que seja. Agora, se a pessoa faz quente e frio, atrai e descarta, promete mudar e repete o ciclo, impede o fim, aí estamos falando de outra coisa.
Outro falso positivo cada vez mais comum: homens chamando de narcisista uma mulher que pediu pensão ou que conseguiu uma medida protetiva. Pensão é obrigação legal. Medida protetiva é a lei funcionando para protegê-la. Isso não é abuso - é direito humano à vida e à segurança.
Falso negativo: Não reconhecer o abuso porque ele não vem na forma de gritos e força bruta. Às vezes vem em forma de "proteção": não precisa trabalhar, eu cuido de você. Que deixa a mulher financeiramente dependente, incapaz de sair do relacionamento, mesmo se quiser.
Ambos os erros nos custam caro.
Então o que você pode fazer?
Primeiro: entender que não é culpa sua cair num relacionamento tóxico atrás do outro.
A sociedade vai querer te dizer que o problema está na sua autoestima, que você atrai quem você é, que você precisa "se trabalhar". Eu discordo. O que eu vejo, em anos pesquisando esse tema e trabalhando com sobreviventes, é que o problema não está em você.
A resposta real é mais simples e mais pesada ao mesmo tempo: tem muitas pessoas misóginas por aí, e a própria sociedade é estruturada assim. Além disso, estima-se que aproximadamente uma em cada cinco pessoas tenha o traço narcisismo de moderado a alto. Some isso a uma cultura que normaliza comportamentos abusivos e opressivos contra as mulheres, é uma receita para o desastre. O mar não está para peixe - e ninguém te ensinou a nadar nele.
O que você precisa não é de terapia para "se consertar". As chances são de que não há absolutamente nada de errado com você. O que você precisa é de ferramentas para ler as pessoas com mais precisão - para identificar nas falas e comportamentos os sinais que estão ali, às vezes bem escondidos atrás de charme e promessas.
Aprender a separar manipulação velada de comunicação genuína. Aprender a observar ao longo do tempo, não só nas primeiras impressões - é isso que vai te proteger daqui para frente.
Se você quiser aprofundar isso comigo, o Workshop Liberte-se de Narcisistas acontece nos dias 2 e 3 de maio. Lá a gente trabalha exatamente essas camadas - reconhecer traços, observar padrões, e se proteger - seja você ainda dentro do relacionamento ou tentando entender o que aconteceu depois que saiu.
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I.M.U.N.E. News
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Reflexões, red flags decodificadas, padrões expostos vindos de 20 anos de pesquisa e 1.600+ casos reais de sobreviventes.
Direto na sua caixa de entrada, toda terça. É gratuito, mas pode mudar sua vida.
Até a próxima dose de imunidade!
Carol

